Fimdeano
Era fim de ano e ela queria escrever alguma coisa que servisse de despedida e que ensaiasse um recomeço. Todo fim de ano inaugura um novo ano que, obviamente, deve vir recheado de sonhos e desejos próprios de quem começa tudo outra vez.
Mas estava tão desanimada, pobrezinha. Teve medo de desanimar todo mundo que lesse, por menos que fosse. Não queria desanimar ninguém, tampouco parecer desanimada (demais).
Foi assim que começou, tentando disfarçar seu leve desencantamento:
“Eu tenho o ar nos meus pulmões e meus olhos que podem ver tudo que eu vejo.
Eu tenho minhas pernas que podem me levar onde eu quiser ir e meus braços para carregar somente o que for indispensável.
Eu tenho minha mente inquieta e delirante que me faz aprender e desaprender coisas demais.
Tenho meu coração apaixonado que não desiste nunca de amar.
Tenho minha poesia que me ajuda a arrumar as coisas dentro de mim.
Tenho minha alma ansiosa por Deus (que Ele venha e tome conta de tudo em mim).
Tenho meu passado, que me diz quem fui e o que posso ser.
Tenho meu presente, aqui, agora mesmo, enquanto escrevo.
E tenho tudo que tenho pela frente, isso ainda sem palavras.
Eu tenho um caminho diante de mim, cheio de muitas estradas, cada uma delas dando em algum lugar.
Eu tenho tantas coisas. Já me dou por satisfeita”.
Pôs um ponto no final e estava, enfim, muito mais cheia de coragem do que quando começou.