o rio vai longe
Andava nuns dias sem graça,
achando tudo meio torto,
necessitando conserto.
As palavras dando um tempo,
não combinavam nada.
Se faziam incomunicáveis.
Foi num dia comum,
de coisas comuns acontecendo,
[dentro e fora do peito].
Leu alguma coisa sobre o rio
e o seu curso inatingível.
Foi pra casa diferente.
O rio borbulhava-lhe por dentro:
Grandes correntezas de água
poderosa, intransigente.
"Tenho andado em círculos", pensou.
"Ciclos de fazer a mesma coisa: respirar, enquanto vivo".
Até que não dá tanto trabalho.
Respirar é mínimo esforço.
Sentiu falta, mas do quê?
Do amor do qual se despediu,
mesmo antes de encontrar.
De não dar [nem um pingo de] importância
às buscas por sentido.
"Vou seguindo, vou seguindo".
Leu de novo,
leu direito
e se deu conta: o rio ia longe.
"O rio corre e eu avisto, a distância,
suas águas inconstantes".
