o rio vai longe

01-04-2014 22:58

 

Andava nuns dias sem graça,

achando tudo meio torto, 

necessitando conserto. 

 

As palavras dando um tempo,

não combinavam nada. 

Se faziam incomunicáveis.

 

Foi num dia comum,

de coisas comuns acontecendo,

[dentro e fora do peito].

Leu alguma coisa sobre o rio

e o seu curso inatingível.

 

Foi pra casa diferente.

O rio borbulhava-lhe por dentro:

Grandes correntezas de água

poderosa, intransigente.

"Tenho andado em círculos", pensou.

"Ciclos de fazer a mesma coisa: respirar, enquanto vivo".

Até que não dá tanto trabalho.

Respirar é mínimo esforço.

 

Sentiu falta, mas do quê?

Do amor do qual se despediu,

mesmo antes de encontrar.

De não dar [nem um pingo de] importância

às buscas por sentido.

"Vou seguindo, vou seguindo".

 

Leu de novo, 

leu direito

e se deu conta: o rio ia longe.

"O rio corre e eu avisto, a distância,

suas águas inconstantes".