Pulsão. De Sylvia Toledo, a doce Rosa Guimarães.
Pulsão
E se me fosse possível escapar pelos poros deste desespero
E me livrar sem mágoas do acalento desta redoma?
Se me fosse aberta a garganta,
Se não me fossem presos os lábios,
Quem sabe assim me doeriam menos os sorrisos
E tudo se confortaria em leve pulsão involuntária.
E se eu não temesse a angústia na profundidade da noite?
Se a solidão me fosse menos um cômodo que um consolo?
Quem sabe assim me afagariam menos os abraços
E a vida se converteria em breve pulsação embrionária.
Se sentir doesse menos, eu poderia ser feliz sem esta timidez operante
Ser-me alegre sem esta culpa difusa
Para dizer a tudo e a todos o quanto penso da vida.
Olhos cerrados no canto do quarto,
Ao som evasivo da canção de amor da jovem louca.
A solidão é um refúgio que fere a queima roupa
E encerra na campânula de vidro o sorriso doce
Que dissimula a face de uma dor intransitiva.
Sylvia Toledo (ou Rosa Guimarães)
