Pulsão. De Sylvia Toledo, a doce Rosa Guimarães.

13-05-2014 22:43

 

Pulsão

 E se me fosse possível escapar pelos poros deste desespero

E me livrar sem  mágoas do acalento desta redoma?

 

Se me fosse aberta a garganta,

Se não me fossem presos os lábios,

Quem sabe assim me doeriam menos os sorrisos

E tudo se confortaria em leve pulsão involuntária.

E se eu não temesse a angústia na profundidade da noite?

Se a solidão me fosse menos um cômodo que um consolo?

Quem sabe assim me afagariam menos os abraços

E a vida se converteria em breve pulsação embrionária.

Se sentir doesse menos, eu poderia ser feliz sem esta timidez operante

Ser-me alegre sem esta culpa difusa

Para dizer a tudo e a todos o quanto penso da vida.

Olhos cerrados no canto do quarto,

Ao som evasivo da canção de amor da jovem louca.

A solidão é um refúgio que fere a queima roupa

E encerra na campânula de vidro o sorriso doce

Que dissimula a face de uma dor intransitiva.

 

Sylvia Toledo (ou Rosa Guimarães)